Novo santo José de Anchieta, S.J.

Conhecido e celebrado como “Apóstolo do Brasil”, José de Anchieta teve como

terra natal São Cristóvão da Laguna, na ilha de Tenerife, pertencente à Espanha. A

maior do arquipélago das ilhas Canárias era terra muito conhecida por seus perfumes,

flores e largo mar.

Anchieta nasceu a 19 de março de 1534. Era o terceiro entre doze irmãos. Ele

realizou seus primeiros estudos na terra natal e, aos 14 anos, em 1548, matriculou-se no

Colégio das Artes, anexo à Universidade de Coimbra, a mais antiga de Portugal.

Desde cedo, destacou-se por sua aplicação e esmero no estudo, sendo um dos

melhores alunos de sua classe. Anchieta revelou de imediato seus pendores poéticos,

compondo versos latinos com facilidade. Os colegas chamavam-no “Canário de

Coimbra”. No fluir dos estudos empolgou-se com os ideais missionários da Companhia

de Jesus, na qual ingressou a 1º de maio de 1551.

Durante o período de Noviciado, contraiu séria enfermidade, enfraquecendo-o e

debilitando-o. Sofria de dores severas, passando por um período de sofrimentos físicos

e psicológicos. Temeroso de ser despedido da vida religiosa, por causa de sua saúde

frágil, fez com que o Pe. Miguel Torres percebesse o drama de José. Como superior,

tentou confortá-lo, afirmando que Deus o queria assim. Face à precariedade da

medicina na época, os médicos sugeriram ao Pe. Miguel que enviasse Anchieta para o

Brasil devido aos ares e ao clima da região.

Assim, a 8 de maio de 1553, partiu do Tejo, em Lisboa, a caravana que trouxe

Duarte da Costa, segundo governador-geral. Na comitiva também se encontrava José

de Anchieta. A travessia foi salutar e terapêutica para o jesuíta que se sentia disposto

e animado na longa viagem. Prestativo, ele ajudava na copa e na cozinha efetuando

pequenas tarefas. Após a longa e monótona viagem, em 13 de julho de 1553, Duarte

da Costa, com José de Anchieta e demais jesuítas, fez desembarcar sua armada em

Salvador, à época capital do Brasil.

Após breve estadia em Salvador, em tormentosa travessia, os jesuítas rumaram

para o Espírito Santo. A 24 de dezembro de 1553, véspera do Natal, os missionários

aportaram em São Vicente. O Provincial, Padre Manoel da Nóbrega, jubiloso, acolheu-
os com abraços. O Provincial e Anchieta tornaram-se amicíssimos e formaram um dueto

extraordinário em suas atividades junto aos povos indígenas durante décadas. Anchieta

de pronto lançou-se a estudar a “língua geral”, ou seja, o idioma falado pelos índios

tupis, residentes por toda a costa do Brasil. Ele sabia que para se comunicar com os

índios necessitaria aprender seu idioma e aprendeu-o com extrema rapidez.

Enquanto Anchieta se dedicava intensamente aos estudos, pressuroso, Manuel da

Nóbrega se esmerou na escolha de um local para a construção de um colégio. No dia 25

de janeiro de 1554 o Colégio foi festivamente inaugurado em uma frágil palhoça entre

o rio Tamanduateí e o riacho Anhangabaú. As regras do jogo eram claras para quem

quisesse viver perto: trabalho, disciplina, boa conduta e religiosidade. Assim, em uma

colina de Piratininga surgiram as raízes da futura cidade de São Paulo.

Anchieta se tornou a alma do colégio de Piratininga, sendo professor de latim

e exímio educador. Sendo um dotado ator, músico, poeta, carpinteiro, horticultor, pai

dos aflitos, ferreiro, catequista, cozinheiro, enfermeiro, etc. teve o dom de ensinar as

crianças índias, valendo-se de suas habilidades naturais para ensinar a religião, os bons

costumes e as artes. Anchieta é considerado o fundador do teatro brasileiro, da literatura

e poesia brasileiras. Exímio entendedor da língua latina, enquanto esteve aprisionado

e refém nos longos meses entre os tamoios em Iperoig (Ubatuba atual), na costa

brasileira, seu talento poético aflorou e compôs sua obra imortal denominada – POEMA

DA VIRGEM (De beata Virgine), também chamado POEMA DE ANCHIETA, com

5.732 versos latinos, riscados nas areias, usando um tosco bordão, na companhia de

aves revoando por perto. É uma espontânea declaração de afeto e carinho de Anchieta à

Virgem Maria, Mãe de Deus e mãe nossa. Posteriormente redigiu de cor todo o poema

que memorizara na praia à medida que o ia compondo.

Em 1565 Anchieta é enviado de São Vicente ao Rio de Janeiro, onde lidera a

construção de um Colégio e a Santa Casa de Misericórdia. Era incansável e onipresente.

Porém, seu desdobramento como Provincial entre 1588-1597, começou a debilitar suas

forças. Seus últimos anos foram vividos em Reritiba, no Espírito Santo, situada ao sul

de Guarapari, hoje de nome Anchieta.

Foi ali, em Reritiba, que o Pe. José de Anchieta faleceu em 9 de junho de 1597,

com a idade de 63 anos de vida, dos quais 44 passados no Brasil, para onde ele aportara

em busca de saúde. Sua morte foi pranteada por todos. Numeroso cortejo fúnebre,

composto por milhares de índios e moradores da região, conduziu, em procissão, por

mais de cem quilômetros, seu corpo até a vila de Vitória.

Foi enterrado na Igreja de São Tiago, ao lado do Colégio da Companhia de

Jesus. Em 1609 os ossos de Anchieta foram transladados para a Igreja do Colégio da

Bahia, em Salvador.

Anchieta foi um psicólogo nato, inteligente e admirável, com bom senso,

aliado a tino prático. Um homem santo e sábio que soube cativar os nativos com sua

simplicidade e alegria, aproximando-se das suas almas, dos seus corações e de seus

espíritos. Um sacerdote e pastor exemplares em todos os sentidos, digno de ser seguido.

Sua veneração, como santo, fosse por parte dos indígenas, dos portugueses ou

espanhóis, foi reconhecida pela Igreja Católica no dia 9 de junho de l980, quando foi

beatificado pelo Papa João Paulo II, iniciando-se logo seu processo de canonização.

O Papa Francisco, valendo-se da faculdade de usar na canonização o

denominado processo “equipolente”, reconhecendo seu intenso trabalho realizado no

século XVI, na evangelização dos índios do Brasil, assinou o decreto de canonização de

Anchieta no dia 3 de abril de 2014. Deo gratias! Assim sendo, hoje podemos rezar com

todo fervor ao novo Santo:

São José de Anchieta, roga por nós!

Prof. Egon Roque Fröhlich

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